O Polje Mira-Minde

Bem-vindos a um dos lugares mais especiais do nosso país e do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros!

O polje Mira-Minde é uma zona húmida muito particular, protegida pela Convenção de Ramsar. Este vale, verde quase todo o ano (e, por isso, conhecido entre nós por Mata), fica azul nos meses mais chuvosos… razão pela qual também lhe chamamos “Mar de Minde”.

A explicação para o aparecimento temporário deste lago invernal prende-se com a geologia do Maciço Calcário Estremenho, que constitui o PNSAC. As características físico-químicas da rocha calcária ditam o seu comportamento permeável à água das chuvas, que rapidamente se infiltra à superfície e escorre dentro do maciço, esculpindo suavemente a rocha em arquitecturas dignas de templos. Formam-se rios subterrâneos, galerias, grutas com estalactites e estalagmites – um magnífico submundo labiríntico e húmido.

Estamos portanto em cima de um aquífero cársico. Toda a água que chove aqui infiltra-se rapidamente para o seu interior, mas entre o Outono e a Primavera, quando a precipitação é mais elevada e o aquífero enche muito, volta a brotar cá para fora! 

Isto acontece porque o nível freático ultrapassa a altitude do vale de Mira-Minde e a água vaza por aberturas naturais, chamadas algares. Quando estão secos os algares parecem-nos grutas, mas quando começam a regurgitar caudais de água limpa percebemos que, na verdade, são nascentes. 

As três primeiras nascentes a rebentar na Mata são o Olho, o Poio ou Pena (demos-lhe nomes diferentes em Minde e na Mira, respectivamente) e o Regatinho. Formam-se os rios, ou regatos, com os mesmos nomes, que correm para outros algares mais a sul onde a água é novamente engolida. São inicialmente temporários porque, à medida que mais algares se juntam à festa, toda a água se une numa grande cheia que submerge caminhos, muros e árvores. Em alguns pontos, pode chegar aos 14 m de profundidade! 

Com a diminuição da chuva, vemos a cheia a recuar e algumas poças grandes, onde a água fica ainda resgatada durante um tempo: formam-se os lagoeiros. A água que se vai embora acaba por ser drenada, na periferia do PNSAC, por várias nascentes entre as quais as dos conhecidos rios Lena, Alviela e Almonda.

A Mata muda radicalmente ao longo das estações do ano: de lago, às vezes com ondas de mar, a bosque e campos; de azul escuro a verde florido, amarelo, laranja, castanho; merece uma visita, sempre diferente, em qualquer época do ano. 

Mas também tem mudado muito ao longo dos anos. Outra razão porque se lhe chama Mata, diz-se ser em honra do bosque frondoso de carvalhos centenários que outrora aqui dominou, mas que foi sendo desflorestado, não só pela madeira, mas também para dar lugar à agricultura.

Uma vez que estas terras inundam anualmente, só uma cultura foi realmente possível e propícia nos passados séculos: a vinha. Quase todas as famílias tinham o seu quinhão na Mata, por vezes, somente uma pequena fila de videiras, para ter vinho. Desse passado agrícola, resta-nos o rendilhado de muros que em tempos dividiam meticulosamente a Mata em pequenas propriedades, com alguns caminhos de uso comum no meio, poços e cisternas em pedra branca. 

A prosperidade da indústria têxtil nas duas vilas ao longo do século passado determinou que gradualmente se fossem abandonando os campos, entregues assim à Natureza mais uma vez. 

Nas últimas décadas, a Mata teve uma oportunidade única de regeneração natural – o caminho espontâneo de retoma a um ecossistema mais rico. Quem visita hoje o polje tem assim igualmente a oportunidade de assistir a este processo, num estádio muito interessante da sua sucessão ecológica, que tem vindo a decorrer das beiras para o interior dos terrenos, como se pode observar pela maior densidade da vegetação junto aos caminhos, onde as árvores foram toleradas nos tempos vitícolas.

A espécie de flora mais predominante é pois o pilriteiro, ou espinheira, como muitos lhe chamam. Apesar de ser julgado como uma invasora, muito também à custa do seu mau feitio com grandes espinhos, é uma bela espécie autóctone com função pioneira – coloniza terras empobrecidas e prepara-as para as árvores mais exigentes que se lhe seguem: os carvalhos-cerquinhos ou portugueses, que formam os verdadeiros bosques clímax.

Na Mata encontramos ainda bosquetes de freixos, sobreiros, choupos, ulmeiros e oliveiras; arbustos como a murta, o abrunheiro-bravo, o marmeleiro e o sanguinho-das-sebes; pradarias de gramíneas perenes; ervas aromáticas como o poejo, os orégãos, a macela e a nêveda; e flores raras como a noselha ou várias espécies de orquídeas. 

Os anfíbios encontram nesta zona húmida um habitat raro. Podemos cruzar-nos com espécies como o tritão, o sapo comum, o sapinho-de-verrugas-verdes, a salamandra-de-fogo (que foi eleita mascote deste sítio Ramsar) ou a salamandra-de-costelas-salientes. 

Cobras-de-água, musaranhos, morcegos, galinhas-de-água, garças, bufos, coelhos, javalis, raposas, vacas e cavalos selvagens são só alguns de outros exemplares da fauna que aqui pode ser avistada.  

A Mata é um espaço da natureza e da comunidade. Para todos podermos desfrutar, todos devemos cuidar. Quando fores passear pela Mata, deixa só pegadas e leva apenas fotografias e a alma cheia contigo! 

Podes ainda juntar-te a este Movimento Mira-Minde e ajudar na valorização do nosso polje 🙂

Partilha este artigo...