História da Cisterna Grande

Naquele covão, lá onde Minde e a Mira estão (a rima é de Francisco Madeira Martins, poeta minderico), forma-se um mar de água imenso no inverno, mas de roto que é o chão, bem a brotam os algares em anos chuvosos e melhor a bebem nos meses de estio que se seguem, quando mais precisa seria para lavouras e gado. Como forma de contornar tal travessura da natureza, construiu o homem serrano poços de paredes empedradas nas zonas de solo mais argiloso, e por isso impermeável, assim como pequenas cisternas e pias junto das vinhas para fazer a calda bordalesa – tudo se encontra agora ao deus-dará.

Um taberneiro que transformava água em vinho…

Conta-nos o saudoso A. de Jesus e Silva num número do Portomozense de 1901, com grande rigor de eras, que corria o ano da graça de 1512 em Minde, quando a Morte bate à porta de um cidadão de 75 anos de idade que lá vivia, com a vida inteira ocupada no seu mister de encher copos.

Talvez pela grande fé que o animava, vá lá a gente saber, sempre tentou imitar Cristo nas Bodas de Caná, transformando água em vinho, ou melhor, acrescentando-a à zurrapa que impingia aos seus fregueses, o que lhe valeu aforrar neste mundo consideráveis cabedais. Está visto que já naquele tempo havia em “Minde ricos”, releve-se a graçola. Porém, não leva a Morte estes milagres e riquezas em consideração, corta a direito, tal como a Justiça quando não lhe retiram a venda dos olhos.

Eis que veio então a Morte à sua procura, sorte ter vindo ela com vagar e benevolência para um pré-aviso, uma vez que deu tempo ao moribundo para se arrepender dos falsos milagres feitos durante a vida com a água do Poço Velho. Repeso da condenável iniquidade, e temeroso de que esta lhe obstruísse o caminho de passagem para o Céu, mandou chamar o pároco da freguesia, a quem contritamente se confessou e pediu conselho para desagravo. O sacerdote, ponderando bem o peso da grande falta, ou o volume, melhor dizendo, uma vez que se tratava de líquidos, e conhecendo a abastança de posses do pecador, aconselhou-o a mandar construir a expensas próprias um depósito para serventia do povo ludibriado, cujo levasse pouco mais ou menos a quantidade de água que, no decurso dos seus anos de vida, utilizara nas mixórdias do vinho.

Dias há em que a Morte vem precavida de paciência, terá sido aqui o caso, pois concedeu ainda mais tempo ao taberneiro para, no intercalo dos extremos suspiros, mandar chamar os filhos e instruí-los na recomendada construção: para bem de sua alma, cumprida fosse esta última vontade. Pois sim, meu pai, terão garantido em uníssono os filhos dedicados, não nos diz a História quantos seriam, mas sabe-se que, a fazer figas de mãos veladas nas algibeiras ou por detrás das costas, fizeram tábua rasa do pedido do velho.

A verdade que se conta é que a prole de filhos, netos e bisnetos terão aprendido na mesma escola do genitor, dando continuidade à venda de copos de vinho batizado com água dos poços da Mata, os mais próximos de Minde, muitos deles já desaparecidos, não só este Poço Velho situado ao fundo da Costa, mas também o Poço da Poça, o Poço Tanque, o Alto e o do Oiteiro. Eis que na linhagem do falecido surge um bisneto, honrado cidadão e capitão do Exército, de seu nome Manuel Cansado, que, vindo descansar no seu berço natal das fadigas da guerra com Castela, decidiu cumprir finalmente a última vontade do bisavô, sabe-se lá se, por tal adiamento, não lhe esteve no entretanto a alma entalada no Purgatório.

Foi assim desta maneira, a mando do capitão Manuel Cansado, com a despesa paga da sua própria bolsa, que, no campo da Mata à beira de um caminho que liga a capela de S. Sebastião minderico à de N.ª S.ª da Boa Morte mirense, do lado Este, quase a chegar-se à Mira (então parte integrante da paróquia de Minde), se construiu um grande depósito de água potável para abastecimento das gentes das duas povoações, a que se deu o nome de Cisterna da Mira.

Ficam-lhe nas proximidades, a caminhar-se mais para noroeste, o conhecido Poço da Espinheira e a chamada zona dos poços, com vários deles construídos segundo circunferências perfeitas e que se mantêm com água durante o ano inteiro, quanto mais não seja por ninguém dela se servir. Entretanto, a Cisterna da Mira é atualmente conhecida por Cisterna Grande, havendo ainda quem a batizasse em tempos de Cisterna do Cerco.

A dita cisterna, já em ruínas em 1901 (agora esbarrondada de todo), teria três ordens de escadas por onde se descia para recolher a água, das quais uma olhava para o norte, outra para o sul e outra para o nascente. O certo é que, só vendo as dimensões do reservatório, é possível avaliar a avultada quantidade de água que o taberneiro minderico do Séc. XVI e subsequentes herdeiros terão servido aos clientes, afiançando-lhes que era pinga do puro bago. Do mal, o menos. Analisando com minúcia o citado artigo de A. de Jesus e Silva, a modos que se me amoleceu o coração e, fosse eu juiz, absolveria o mixordeiro mindense.

Detalha-nos o cronista que a água misturada no vinho provinha do Poço Velho «que parece datar do tempo dos moiros; e segundo a tradicção suas águas eram dotadas de encantamento, porque, diziam, aquelle que d’ellas bebesse jamais abandonava a povoação: ainda hoje [1901] a qualquer pessoa que visita a terra e n’ella se demora, diz o povo: bebeu água do poço velho» (já ouvi dizer o mesmo da água do Olho da Mira, enfim!). Assim ponderado, enaltecido seja o vendeiro, por ter contribuído prodigamente para a fixação de gente nestes tão ermos lugares, ao servir-lhes a miraculosa água do Poço Velho, mais que comprovado elixir fixador de habitantes, além do consequente bem que terá feito aos fígados dos seus fregueses, ao reduzir-lhes cumulativamente a quantidade de álcool a metabolizar.

Nesta linha de pensamento, se fosse hoje e no atual quadro de incentivos à fixação de população no país interior, o nosso taberneiro minderico, de que não se sabe o nome, apesar da rigorosa cronologia do ano da sua morte e da idade que tinha, seria por certo condecorado com distinção, pompas e circunstâncias.[1]

P.S. : Consultando o Programa do Movimento Mira-Minde para o próximo triénio, reparei que nele figura o objetivo de “planificação da recuperação da Cisterna Grande”, um primeiro passo para a sua almejada reabilitação. Vamos ver se por aí aparecem uns capitães Manueis Cansados que ponham mãos à obra e abram os cordões à bolsa. As fotos apresentadas são de Miguel Tristão e mostram a Cisterna Grande seca em tempo de verão e a transbordar, já neste ano de 2021.


[1] Fontes:

   – Tradição oral da região;

   – SILVA, António de Jesus e, in jornal O Portomozense n.º 103, Porto de Mós, 16 de janeiro de 1901, p. 1

   – MIRO, Aires de, in jornal Voz de Mira de Aire n.º 748, Mira de Aire, 20 de abril de 2021, p.10

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